A ganhadora do Oscar – e agora cineasta – discute seu primeiro filme e porque espera que sua mensagem genuína incentive outros criadores.

Mas o que ela sempre quis fazer foi dirigir. Para a atriz ganhadora do Oscar Brie Larson, estar atrás da câmera não era o tipo de carreira ela tinha em vista apenas depois de tantos anos no meio – foi algo que ela cresceu fazendo. Ela só teve que ter uma oportunidade.

“Eu tenho feito filmes a minha vida inteira,” Larson disse ao IndieWire. “Todo verão, eu escrevia e dirigia um filme que eu fazia com meus primos. Na maioria das vezes acontecia na garagem, e eu pendurava diferentes lençóis e usava nossos containers como pesos para as coisas. Eu tinha uma bola de discoteca que eu colocava na porta da garagem e quando eu ligava-a, significava que estávamos gravando.” Ela acrescentou, “eu acho que essa era parte da minha maneira de me expressar por um bom tempo.”

Larson também estrela seu filme como a recém graduada Kit, uma artista falida que acredita que a única maneira de obter sucesso é transbordar seus sonhos criativos e virar uma pessoa completamente diferente no processo. Enquanto seus pais (Bradley Whitford e Joan Cusack) estão entusiasmados quando percebem que a Kit infantil está finalmente crescendo, ela sofre para descobrir que tipo de pessoal ela realmente quer ser. Ah, e então Samuel L. Jackson aparece e oferece Kit seu próprio unicórnio, contanto que a personagem em conflito prove seu verdadeiro valor. A antiquada Kit? Isso não vai ser um problema.

O filme é a terceira aventura de Larson por trás das câmeras, tendo co-dirigido os curtas “The Arm” e “Weighting”, o qual foram apresentados no Sundance e SXSW, respectivamente. Esses filmes ajudaram a alimentar não só a implacável criatividade de Larson, mas a sua própria noção de identidade. Parece correto que “Unicorn Store” aborde basicamente os mesmos temas.

TOMANDO O CONTROLE DE VOLTA

“Fazer curtas era parte da minha maneira de tomar as rédeas ao invés de ficar esperando pelo próximo trabalho,” ela disse. “Qualquer coisa que eu pudesse fazer para que eu sentisse que eu tinha uma vida além da de atriz, assim quando eu não conseguisse um trabalho, eu não sentiria que meu mundo estava acabado. Só parecia que faltava uma peça.”

Larson inicialmente fez audições para estrelar num filme cinco anos atrás, mas a produção, que escolheu Rebel Wilson e a direção de Miguel Arteta, nunca decolou e a atriz nunca conseguiu tirar isso da cabeça. Quando foi oferecido a ela, após a sua vitória no Oscar por “O Quarto de Jack”, e também com uma pontinha na direção, ela sabia que daria certo. “Sempre senti que eu estava destinada a contar aquela história,” ela disse.

Ela trabalhou no roteiro por um ano junto com Samantha McIntyre, criando personagens e se preparando para compartilhar com seus produtores em potencial. Larson, que havia trabalhada na indústria desde que era criança, estava preparada para esperar muito pela parte de finanças. “Eu pensei, ‘bem, vamos fazer isso, mesmo que demore anos até que eu realmente termina-lo.”  24 horas depois e foi vendido. Larson trabalhou nas primeiras partes da pré-produção enquanto filmava “O Castelo de Vidro” processo facilitado pelo fato de que ambos os filmes compartilharam uma série de cabeças de departamento, no melhor de sua sinergia indie. Isso não significa que ela conseguiu se livrar dos nervos de principiante tão rapidamente.

“Existe uma vulnerabilidade que vem quando se dirige um filme, que diz assim ‘Esse é o meu ponto de vista, é assim que eu vejo o mundo, e é significativo pra mim e espero que signifique algo para outras pessoas,” disse Larson.

REUNINDO A EQUIPE

Enquanto ela reconhece o processo criativo referente a sua atuação, dirigir “Unicorn Store” atingiu algo mais profundo, e talvez algo mais sombrio. “Eu entendo porque não temos tantas vozes novas,” disse ela. “Porque é realmente difícil para essas novas vozes passarem por este processo, conseguir um financiador, conseguir o elenco certo, conseguir a equipe certa, vender a ideia, coloca-la num festival. É muito difícil para a sua mente.”

Porém, várias coisas boas aconteceram ao longo do caminho.
O elenco de Larson se juntou com uma facilidade impressionante, e co-estrelas como Whitford e Cusack foram “as pessoas perfeitas para isso” e assinaram após as primeiras ofertas. Na verdade, Jackson se aproximou dela antes, quando ainda filmavam “Kong”, oferecendo a ela um ponto de vista e a paixão que Larson queria ver refletida no seu filme.

“A parte mais difícil para mim foi pensar se as pessoas confiariam em mim com isso,” Larson falou. “E perceber o quanto para um ator, é um ato de coragem para assinar com qualquer filme.”

Outro ator que confiou em Larson de primeira: Mamoudou Athie, mais conhecido pelo seu trabalho em “The Get Down” e “Patti Cakes”. Para o papel de Virgil, um empregado de uma loja de hardware que se junta a jornada de Kit em busca de seu unicórnio, ao longo do caminho, se torna alguém ainda mais importante pra ela, Larson queria um rosto novo para retratar um tipo diferente de masculinidade.

Athie enviou um vídeo após ouvir sobre o papel pela sua colega em “The Get Down”, Yahya Abdul-Mateen II, que conseguiu para ele uma entrevista com Larson pelo Skype.

“Eu estava um pouco nervoso sobre como isso seria”, admitiu Athie. “Ela havia acabado de ganhar um Oscar! E ela era tão legal. Imediatamente, eu estava tipo, ‘Oh, ela é uma das minhas’ Nós conversamos. Sinto que passamos pela gama, conversamos sobre estereótipos e indústria, esperança e humanidade. Conversamos durante 45 minutos.”

A conexão entre eles foi imediata, e, uma vez que Athie obteve o papel, ele ficou satisfeito ao ver que seu vínculo era tão forte no set. “Ele se sentiu meio inato”, disse ela. “Simplesmente, ‘Oh, nós entendemos o que é isto'”.

ÚNICO E DIFERENTE

Como atriz, Larson ficou impressionado com a “singularidade” de Kit e sua incapacidade de deixar sua singularidade. O filme segue as primeiras tentativas de Kit para viver o tipo de vida antiquada que ela acredita que ela é esperada dela – completa com trabalho de escritório e terno abotoado – mas não é bem uma verdade, e o filme é tanto sobre a vinda da idade de Kit quanto é sobre ela ficar sozinha. Larson adorou isso, mas ela também se identificou com isso.
“Eu sei que o filme não é para todos”, disse ela. “Mas espero que, para as pessoas que eu fiz, que isso ressoe nelas como uma maneira de dizer: ‘Precisamos dessas vozes únicas e diferentes’.
Mas Athie não poupou palavras para falar sobre sua experiência em conjunto com a diretora. “Ela é uma das melhores diretores com quem eu já trabalhei”, disse o ator. “Apenas extraordinariamente generosa, mas também tão claro, tão sucinta com as suas instruções …Não sei como ela realmente, como? É apenas insano. Não entendi como conseguiu mudar de tão vulnerável e emocionalmente disponível [ao agir], para ser tão precisa como diretora”.

Larson, que há muito tempo tem falado sobre a necessidade de diversidade e respeito na indústria, está ansioso para que o seu filme possa inspirar os outros, embora talvez não seja exatamente da maneira mais esperada. “Minha esperança era, se o filme é bom ou não, é outra peça no quadro”, disse ela. “As pessoas podem olhar e dizer ‘Este filme é incrível, eu quero fazer isso’ ou você pode ir, ‘Esta é a pior coisa que já vi, se ela pode fazer isso, então eu definitivamente posso fazer um filme.'”

Ela acrescentou: “Através disso, minha esperança é que tenhamos mais mulheres, mais pessoas de cor, pessoas de diferentes orientações sexuais contando suas histórias, porque é isso que precisamos. Precisamos apenas de mais. Precisamos de mais do “diferente” “.
Larson entende que o público pode interpretar o filme como algo peculiar ou bizarro, mas sabe que há mais do que issp. “Obviamente, o filme é um pouco distante e um pouco surreal, mas acho que o mundo em que vivemos é surreal”, disse Larson. (Athie comparou sua visão e tom com “Brilho Eterno de uma mente sem Lembranças”.) A loja de unicórnio (The Unicorn Store) pode ser metafórica – ou não -, mas Larson vê isso como algo emblemático e o maior e o melhor dos sonhos.

Como disse: “Todos devemos ter nossos sonhos, mesmo que nos façam parecer um pouco loucos”.

Unicorn Store teve sua estréia mundial no Festival Internacional de Cinema de Toronto de 2017. Atualmente, está buscando distribuição.

Fonte: Indiewire