As estratégias de inclusão cresceram muito, mas como realmente movimentar esta ação? O trio dessa organização nos mostra o próximo passo revelando como ativar a interligação das mulheres de Hollywood: “Eu não estou mais interessada em mudar corações e mentes.”

Stacy Smith desde que ingressou no corpo docente da USC, em 2003, publicou relatórios anuais sobre o estado da representação racial e gênero em Hollywood. Ano após ano, os gritos no vazio não eram ouvidos. “Durante 15 anos eu fiquei sufocada. Então eu encontrei o meu povo.”, Smith diz ao THR. E junto, Brie Larson (29 anos) e Tessa Thompson (35 anos).

O trio se conheceu em uma das primeiras reuniões do Time’s Up em 2017 na casa de Larson, onde Smith apresentou sua fiel apresentação em PowerPoint. “Quando tudo que você estudou é finalmente entregue ao público para o qual ele é destinado, eles podem se inspirar com as informações e de uma maneira nova”, diz Smith. Ela e um grupo de atrizes apresentaram suas estatísticas e sugestões estratégicas aos líderes da UTA, representada por Frances McDormand, que levou à declaração para o palco do Oscar e sendo ouvida em todo o mundo: “Inclusion Rider” (Tradução livre: “cláusula de inclusão”). Trata-se de um conceito introduzido pela primeira vez em um editorial criado por Smith, que desenvolveu a linguagem com o produtor Fanshen Cox DiGiovanni e a advogada Kalpana Kotagal.

Smith, Larson e Thompson também estão no comando para pressionar mais uma maior inclusão na mídia. Foi uma idéia desencadeada em uma reunião no Sundance Festival organizada por Thompson em Janeiro, que conduziu, em junho, o primeiro estudo de Smith analisando o gênero, a raça e a etnia dos críticos de cinema; Larson usou seu discurso de aceitação no Crystal + Lucy Awards para chamar a atenção ao assunto. Um banco de dados para estúdios e publicitários, Critical, foi iniciado com o Time’s Up: “Já temos 400 críticos lá”, diz a futura Capitã Marvel.

O The Hollywood Reporter reuniu o trio para uma conversa sobre a ação além da conscientização e como fazer impor as propostas apresentadas.

Qual foi a razão para se reunirem pela primeira vez?

Brie Larson: Até termos essas reuniões a maioria de nós nunca havíamos nos conhecido, porque não há tantos filmes que protagonizam muitas mulheres ao mesmo tempo. A maioria de nós estava lidando com esses problemas sozinhas, sem entender que, se estivéssemos juntos, teríamos a vantagem de realmente fazer isso acontecer.

Tessa Thompson: A sensação de quando estamos todas juntss é que há uma oportunidade real de abordar grandes questões sistêmicas dentro de nossa indústria. Mas como qualificamos e quantificamos? Existe uma métrica para isso?

Isso está tornando as pessoas conscientes das estatísticas por trás da sub-representação o suficiente para que elas mudem suas práticas?

Stacy Smith: “Mudando corações e mentes” – Eu não estou mais interessada nessa conversa. Muita conscientização aconteceu na casa de Brie naquela noite porque os números confirmaram as experiências. Então elas tomaram tiveram uma ação, e é isso que não vemos em estúdios, produtoras, agências e publicações, cujas ações não são modificadas na prática de contratação. Mostrei um slide na casa da Brie e disse: “Se quisermos criar igualdade pela primeira vez na história do cinema, tudo o que você precisa fazer é adicionar cinco personagens de voz ativa sub-representadas em cada um dos 100 filmes mais importantes. Você chegará lá em cinco anos”. Eu tenho dito isso para Hollywood sempre. Aquelas pessoas na sala realmente escutaram e semanas depois eu estou em uma reunião na UTA e Elizabeth Banks fico tipo, “Confira a pesquisa de Stacy”. Essas pessoas não têm medo de responsabilizar ninguém.

Tessa Thompson: Eu me lembro de ter conversado com Frances McDormand sobre inclusion rider em uma festa durante a temporada de premiações e então está ela no palco dizendo isso para o mundo, e isso se torna uma chamada à ação. Os momentos mais poderosos do ativismo são quando temos muitas pessoas diferentes na sala e estamos tentando decidir a melhor forma de usar todos.

Como o inclusion rider deveria funcionar? Quem irá se responsabilizar com as produções?

Stacy Smith: O inclusion rider fala sobre audições e entrevistas. Alguns anos atrás, pedimos para 60 compradores e vendedores para nomear diretores do sexo feminino em suas listas de consideração e a resposta coletiva foi zero. No entanto, houve mais de 100 mulheres [diretoras] na Sundance na última década. Então não encontramos falta de talento. Nós encontramos uma falta de imaginação.

Tessa Thompson: Ava DuVernay fez um mandato e encarregou sua equipe de preencher metade dos cargos com pessoas de cor. Isso foi difícil em alguns departamentos, porque você pode ter um departamento que gosta de trabalhar com as pessoas com quem já trabalhou e nenhuma delas podem ser pessoas de cor. Um diretor, como Ava costuma dizer, você só tem que descobrir: “Você pode ter metade das pessoas que você quer e então você tem que ter algumas outras pessoas, porque eu quero que minha equipe reflita o filme que eu estou fazendo e o mundo em em que vivemos”, que foi o que ela fez no filme “Uma Dobra no Tempo” e felizmente a Disney entrou nisso. A inclusão não acontece por engano. É também sobre a criação de condutas onde elas não existem. Brie e eu trabalhamos nos filmes da Marvel e eles são filmados em Atlanta …

Brie Larson: Não há uma grande quantia de pessoas de cor em algumas das filmagens, dadas quantas pessoas de cor existem em Atlanta. Em certos departamentos isso pode ser compreensível, mas quando você olha para as assistentes de produção, isso não faz sentido.

Tessa Thompson: Eles geralmente são locais.

Stacy Smith: Muitas pessoas ficam nervosas com cotas. Em uma recente reunião do Time’s Up, os membros da ACLU explicaram que estabelecer metas de inclusão é completamente aceitável. É uma fórmula muito simples para criar mudanças. Você define metas e abre o processo de entrevista. Você mede seus sucessos e desafios na contratação – pode ser em diferentes localizações geográficas ou a falta de talentos acessíveis em uma determinada área. Então você deixa as pessoas saberem os pontos fortes e fracos da abordagem para que você possa se adaptar e seguir em frente. Para ser responsabilizado, você permite que o público e os acionistas saibam como você está indo. Vivemos em um lugar em que, nas mídias sociais, há repercussões quando são tomadas ações que não se parecem com o mundo em que vivemos.

Brie, seu próximo filme com Michael B. Jordan, “Just Mercy” , é o primeiro filme da Warner Bros. a se enquadrar na política de inclusão do estúdio. O que você aprendeu sobre essa implementação?

Brie Larson: Quando chegou a hora de implementá-lo, a Warner Bros não estava muito confortável com um ator implementando-o. Então Michael trabalhou com eles como produtor executivo. “Just Mercy” foi filmado em Atlanta, então eles foram capazes de puxar de um certo grupo de talentos de lá, mas eu também acho que eles tiveram que criar algo em certas pessoas, a fim de atender a cota que eles estavam comprometidos. O filme foi feito com mais de 70% de pessoas de cor e foi a melhor experiência que já tive. Foi a primeira vez na minha carreira que eu tive uma equipe de cabelo/maquiagem/figurinho que eram todas de cor. Eu vou ao SAG Awards desde que eu tinha 7 anos de idade. Vinte anos eu estive cercado por pessoas brancas. Me entristece reconhecer que nos separamos dessa maneira dentro de nossa indústria.

O que mais os atores podem fazer para promover a causa?

Stacy Smith: Pela primeira vez não há limites em termos de quem está acessível. Se eu tiver alguma dúvida, eu posso mandar uma mensagem para Tessa ou a Brie e isso pode desencadear uma mensagem de texto ou e-mail para me levar a qualquer pessoa com quem eu precise conversar. Os contatos que essas atrizes têm é extraordinário, porque são produtores, diretores, atores, executivos e agentes. O objetivo é ativar essa rede de contatos com todos na mesma página para levar o assunto adiante.

Brie Larson: Na turnê de imprensa da Capitã Marvel, vou pressionar pela representação em todas as direções: minhas entrevistas, capas de revistas, as roupas que estou usando. Significa gastar mais tempo pensando nas coisas do que você às vezes quer, mas vale a pena.

Tessa Thompson: Eu me sinto muito encorajada pelas pessoas que agem. É o que Reese Witherspoon fez na HBO em termos de paridade salarial. Eu simplesmente recebi uma ligação dizendo que estamos renegociando. Eu não fiz esse trabalho. Alguém fez isso em meu nome. Porque ela estava meio: “Eu tenho uma participação nessa empresa e no que fazemos.”

Por que alguém deveria esperar que a mudança acontecesse?

Stacy Smith: Eu finalmente descobri como nós mudamos a indústria. Não como antigos acadêmicos escrevendo um relatório. Você tem que ter as pessoas profundamente enraizadas e conhecer as nuances da indústria. Então você constrói uma estratégia de ação em torno disso e o faz em nome de todos os que são e estão oprimidos ou marginalizados de alguma forma. E estamos apenas começando.

Fonte: THR
Tradução e adaptação: Brie Larson Brasil